quinta-feira, 22 de abril de 2010

Pérolas do Magoo (um remember peru-boliviano rápido)

Viajar pela Bolívia e Peru é, às vezes, irritante. O assédio dos caça-turistas é enorme, quando não violento. Mal te veem, correm sobre você com cinquenta tipos de ofertas, que variam desde tours turísticos, hospedagem, alimentação e psicotrópicos | Chicos, ¿quieren algo para la mente? |. 

No começo, eu procurava ser simpático e educado com todos. Respondia com respeito. Não funcionava. Com o passar do tempo, minha paciência foi se exaurindo e fui mudando minha atitude para com eles.

De educado passei a ser monossilábico. 

De monossilábico, fiquei lacônico.

De lacônico, mudo.

De mudo, comecei a ignorar.

De ignorar, sarcástico. Eis, pois, duas pérolas minhas que tenho o orgulho de contar-lhes:

1. Chincheros, umas das tantas cidadezinhas do Vale Sagrado dos Incas, nos arredores de Cuzco. Sou abordado por uma cholita que me oferecia roupas, chapéus e afins. 
| Hola, amiguito, !cómprame algo¡
Indignado com o tom de ordem da "amiguinha", respondi:
| A ver, señora... Si soy su amigo, como dice Usted, ¿por qué no me regala algo? Amistad es algo que se cultiva también con regalos...
Obviamente não fui mais molestado por ela nem por outras vendedoras daquela cidade. Creio que minha fama de respondão correu à boca pequena.

2. Mercado de Pescadores de Chorrillos, em Lima. Mal chegamos, já fomos atacados pelos vendedores qual mel por abelhas.
| Hola, ¿ceviche?
Outro:
| Nuestro ceviche es mejor. Venga y pruebe.
| ...
Um atrás do outro, vieram e foram nos oferecendo de tudo insistentemente. Respondíamos que não queríamos e mesmo assim nos ignoravam. Simplesmente vinham atrás da gente e continuavam aquela ladainha interminável de pratos, opções e descontos. Em um momento dado, eram mais de 5 atrás nos perseguindo. Até que solto a seguinte pérola:
| Amiguitos, escúchenme porque no les voy a repetir. Si Ustedes siguen hinchándonos las bolas, nosotros no comeremos con Uds. Cuanto más nos persiguen, menos ganas nos dan de brindarles nuestra presencia. Yo me fijo los precios, elijo donde voy a comer y entonces charlamos, ¿cierto? Ahora váyanse.

O Camilo, à distância, ria até não poder mais. Por fim, disse-me:
| Mandou bem, Magoo!
Sim, eu tenho orgulho de mim mesmo. Aposto que minha mãe teria se escondido se me ouvisse falar assim...

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Colômbia, o Brasil hispanofalante

Na Colômbia:
  1. As pessoas são amáveis;
  2. Você pergunta algo a alguém e essa pessoa te leva até o lugar que você quer ir;
  3. As mulheres são lindas;
  4. As mulheres sorriem para você quando você sorri para elas na rua;
  5. As mulheres olham você nos olhos sem medo e com interesse;
  6. As mulheres rebolam!;
  7. A população é totalmente mesclada (brancos, negros, indígenas, mestiços);
  8. Existem padarias de esquina onde se pode tomar um pingado e comer algum quitute;
  9. Há Fuscas, Monzas e Chevetinhos por todo lado;
  10. O café é maravilhoso:
  11. A comida é boa e farta;
  12. As frutas são todas coloridas e gostosas;
  13. Faz muito calor, chove e às vezes tem frio, tudo num dia;
  14. Existe certo nível de insegurança nas ruas;
  15. Há mendigos dormindo na rua, meninos de rua e pedintes.
Agora, digam-me se isso tudo não é o Brasil falando espanhol e com um toque caliente de salsa?




quinta-feira, 15 de abril de 2010

Tragédia! (parte 2)

Todas as paisagens coloridas do norte argentino desaparecidas. Todos os perrengues bolivianos, bem como momentos passados com a dupla Poeta e 77, com Pajarito, Principessa e Maud, infectados pelo vírus. O trekking de Colca com Tutancâmon, Swiss Army e Charlotte perdido. Cuenca, Arequipa, Puno, Lima. Um mês inteiro no Peru virado cinzas.

Simplesmente o pior desastre de todos os tempos para um viajante...

Continuação...

Nem carece dizer que eu queria matar a francesa qual desenho animado, agarrando-a pelo pescoço e chacoalhando-a. O fato de que era bonita e simpática já não importava mais. 

Minha cara deve ter sido tão reprovadora, tanta deve ter sido a raiva que transpareci quando tudo aconteceu que ela notou instantaneamente que eu não queria papo com ela até resolver o problema do computador, fosse possível ou não.

Corri então na net, conectei-me e procurei no Google algo sobre o vírus. O oráculo máximo, que tanto estimo e admiro, acusou que havia gente no mundo que já tinha padecido do mesmo problema. A saída era baixar um programa (FileAssassin) e destruir o vírus. 

Mas não funcionou. O assassino de arquivos sequer pôde encontrar o vírus. 

Outra saída era apagar o vírus diretamente, o que tampouco não adiantou.

A essa altura, desespero já tinha desaparecido. Restava somente a resignação de ter perdido mais de 6.000 fotos.

Baixo outro programa, já sem muitas esperanças, e este sim consegue desinfectar o computador, mas sem recuperar nenhum documento. Ao seja, ao neutralizar o vírus, neutralizei também tudo o que havia sido agregado a ele. O capitão decidiu afundar no barco junto com toda a tripulação.

Resignação é o que resta. Sem fotos, sem vídeos e com o HD vazio, não sobrou muito mais que cogitar a existência de Deus e rezar por Ele pedindo-Lhe ajuda.

Coincidência, acaso ou auxílio divino?, vem-me à mente vagas recordações de uma conversa que tive com um amigo (Shuriken) sobre computadores. Tinha perdido tudo devido a um vírus e pôde reaver o conteúdo com um programa recuperador de arquivos.

Sim. Eureka! Existirá mesmo esse programa?

Mais uma vez vou ao oráculo e obtenho a resposta. Recuva é o nome da esperança.

Baixo o programa e o faço rodar no HD atingido. Enquanto espero (o processo durará duas horas), ficamos, Camilo e eu, discutindo a existência de Deus (poderá Ele ajudar-nos) e pondo todas as fichas na qualidade dos criadores e programadores do Recuva.

Uma hora se passa e o programa continua rodando. Nenhuma dica de como terminar isso. 

Quando se dá por terminado o processo, incrivelmente vejo o programa anunciar a recuperação de mais de 6.000 fotos, todas com nomes trocados e desorganizadas. Mas são, pelo menos, 6.000 fotos, penso eu. Mando recuperá-las e, quase a passe de mágica, vejo as recordações de nossa viagem voltando à vida qual fênix ressurgindo das cinzas. 

Alegria generalizada. Brasileiros pulando de alegria, francesas entreolham-se com alívio.

Mais nenhum ódio para com elas. 

Por sorte, nossa tragédia não terminou mal nem com ninguém furando os olhos. Fica somente a dúvida da bendição divina, a confiança, mais uma vez reforçada, no oráculo máximo e a crença ferrenha nos idealizadores do Recuva. 

Viajantes tupiniquins quase morreram do coração, mas acabaram recuperando o que somente suas memórias poderiam brindar-lhes.


segunda-feira, 12 de abril de 2010

Tragédia! (parte 1)

Atenção, incautos e desavisados leitores, este post pode conter conteúdo dramático. Favor não ler se sofrer de pressão alta ou coração fraco.


Tudo culmina numa só frase-xingamento: "A porra daquelas francesas putas do caralho!". Assim solta, com todo o respeito que se pode ter, essa frase pode parecer um ultraje à moral e bons costumes. Contextualizada, resume, primeiro, a preocupação e, depois, a apreensão de todo um dia na iminência de uma tragédia. Pendentes do pior, os poucos palavrões não refletem à altura os sentimentos causados. 

"Importante" é a palavra-chave para entender o trágico de toda esta história. Importante foi o que aconteceu. Importante é o que se fez durante uma tarde inteira. 

A tragédia tem início em uma boa ação. Ou melhor, em um gesto solidário para com uma semelhante. De viajante para viajante. De alguém que já teve problemas com a câmera para alguém que estava com problemas com sua câmera.

Francesa era a rapariga. Francês parece ser, em alguns momentos, a minha alma.

Me apiedei.

Vínhamos viajando com essa e outra francesa há dois dias e aos poucos estávamos ficando amigos. Fizemos dois dias de trekking com elas e havíamos passado uns bons bocados juntos. 

Nada mais natural, pois, que ajudá-las num momento difícil. Não conseguia baixar as fotos de sua câmera. Já havia tentado em vários computadores. Como temos o mesmo modelo de máquina fotográfica, pediu para usar o meu cabo e o computador para tentar baixar as fotos. Sem saber que o perigo mora nas pequenas coisas, importantes algumas por sua vez, emprestei-lhe tudo o que pediu.

Eis então o momento da tragédia, que, disfarçado de bom samaritano, mostrou-se como um erro importante.

O que não permitia à francesa baixar as fotos era tão simplesmente o que de mais importante poderia ser: um vírus chamado importante.exe. Que contaminou tudo o que estava ou foi conectado depois no computador, inclusive este mesmo. 

Por sorte ou não, alojou-se no HD compartimentado do computador, onde, tragédia!, estavam guardadas todas, absolutamente todas as fotos tiradas na viagem até então, de cujo um terço somente havia sido feito back-up. 

Como tristeza muita não é pouca, o Importante começou a transformar todas as nossas fotos e vídeos em arquivos executáveis, impedindo de serem visualizadas. Em questão de minutos já tinha infectado boa parte do que havia e transformado em vírus (se é que isso é possível). Ou seja, o que havíamos levado quatro meses para fotografar se perdeu em menos de duas horas. O desespero geral foi inenarrável. Por conta de uma boa atitude e ignorância da minha parte, que poderia ter desconfiado do vírus, perdemos mais de 6.000 fotos.

Todos os momentos, grandes e pequenos, da viagem, registrados estavam armazenados no HD do computador. Tínhamos, como já comentei, um back-up das fotos originais guardados na minha conta paga do Picasa, mas não passava de um terço da viagem até então. De Ushuaia até Chuquicamata estava salvo, mas do Atacama em diante ainda não. Todas as presepadas com Cloclo "Tortuguita" e Lolo "Numéro 2" tinham sido perdidas. Todas as paisagens coloridas do norte argentino desaparecidas. Todos os perrengues bolivianos, bem como momentos passados com a dupla Poeta e 77, com Pajarito, Principessa e Maud, infectados pelo vírus. O trekking de Colca com Tutancâmon, Swiss Army e Charlotte perdido. Cuenca, Arequipa, Puno, Lima. Um mês inteiro no Peru virado cinzas.


Simplesmente o pior desastre de todos os tempos para um viajante...


Continua...


sexta-feira, 9 de abril de 2010

Fotos do Peru e do Equador!

Senhoras, senhores, cachorros e periquitos, eis que anuncio, com prazer e certo atraso, a atualização de novas fotografias nos álbuns da viagem. Espero que gostem:

PERU


EQUADOR


quinta-feira, 1 de abril de 2010

A República das Bananas


Onde fica a República das Bananas?
Quem mora na República das Bananas?
Por fim, o que é a República das Bananas?

Uma pergunta inusitada merece uma resposta inusitada. Três perguntas inusitadas merecem respostas absurdas. 

A República das Bananas fica no meio do mundo.
Moram na República das Bananas os patacões.
A República das Bananas é a República das Borboletas.

Toda viagem começa com um primeiro passo, e os começos tendem a ficar no início de tudo. O início, se visto de ponta-cabeça, pode também ser o próprio fim, de modo que o começo às vezes também é o fim. Nós, por exemplo, começamos nossa longa jornada pelo fim (do mundo).

Quatro meses depois, concluímos o primeiro terço chegando ao meio do mundo. Se você localizar no mapa-múndi as linhas imaginárias que separam/organizam este globo azulado que chamamos Terra, encontrará as dos Círculos Antártico e Ártico, as de Capricórnio e de Câncer. No meio de todas, separando norte de sul, há a do Equador, que, coincidência ou não, tem o mesmo nome do país onde se localiza ela. 

Equador é, pois, onde estamos. 

E parte do que somos é onde estamos, bem como o que comemos e com quem conversamos. Seríamos também, por entanto, patacões perdidos no meio de borboletas?

Expliquemo-nos. 

Há muitas comidas típicas no Equador, e muitas delas, maioria sem dúvida, vem com os famosos patacones, que não conhecíamos até entrar nestas paragens. Patacón é qualquer acompanhamento feito de verde, uma espécie de banana verde e salgada. Com ela, fazem tirinhas fritas, rodelas fritas, bolinho, pão de queijo e outros quitutes mais, que servem frequentemente com arroz, salada, feijão ou lentinhas. E digo servir com, trata-se de acompanhar tudo o que se come em todo lugar. Desde que entramos no Equador, não me lembro de um dia sequer que não tenha comido patacones em alguma refeição.

Vivam, pois, as bananas. Para que haja tantas, são necessárias bananeiras, as quais são plantadas em todos os lugares. Viaja-se pelas estradas equatorianas e o que se vê é mato virgem e muitos pés de verde

Daí então (a minha | ver esclarecimentos) "República das Bananas".

E, diga-me, o que diabos tem a banana a ver com borboletas?

Eis aqui a razão. Eu nunca tinha visto antes um fenômeno similar. Seja no nascer, no pôr do sol ou durante as quentes tardes equatorianas, por onde quer que se vá vislumbra-se uma imensidão de borboletas brancas, amarelas e laranjas voejando por entre árvores e arbustos à altura dos olhos. O rastro de seu voo torpe deixado por suas asas coloridas preenche o céu e dá cor às objetivas das máquinas fotográficas...

Que mais esperar do Equador? Francamente, não sei. Talvez pudesse, com a amabilidade típica dos equatorianos em pedir coisas, simplesmente dizer: 

¡Oye, regálame una mariposa sobre un patacón, porfa!



Esclarecimento 1: República das Bananas, originalmente, é um termo americano que designa, pejorativamente, os países latino-americanos em geral, mas especialmente Honduras. 
Esclarecimento 2: República das Bananas também pode ser um país fictício, habitado por macacos, como  anuncia a Desciclopédia
Esclarecimento 3: Uso o termo à minha maneira, sem intenções pejorativas ou com o intuito de menosprezar, como puderam ver. Se há alguém que pensa o contrário do texto, peço que considere estes três esclarecimentos.