Cuando uno se ve en... Este post eu bem que queria começar assim, mas não posso porque a frase está em outra língua, um idioma que não é o meu e que venho tentando domar aos poucos ao longo destes onze meses que estou aqui.
Cuando uno... Olha ele aí outra vez se metendo no meu texto. Djanho, mil vezes o fio do Satanás! Bom, quando se está em outro país, no qual não se fala a tua língua de origem, no meu caso o meu amado português de Camões e Guimarães Rosa, você se vê submetido, subjugado, sujeito a viver uma vida diferente não só por conta dos lugares diferentes que te rodeiam, mas também porque a língua que os compõe os faz serem interpretados distintamente. Não basta saber que uma
media luna é uma espécie de
croissant, tem-se que saber também que com ela vêm
el mesero,
la mesa,
la silla,
el cafecito,
el tostado,
la propina,
el "nos cobrás", etc. É disto tudo que a
media luna é composta. E de muito mais. É por isto que
cuando uno... (de novo, de novo!) se encontra em outro país, vivendo a sua vida através de um outro prisma, que tudo parece que toma uma nova cara. Aquilo que tantos filósofos e escritores dizem, que a linguagem determina o mundo que vemos, toma forma nestes momentos e te faz entender aquele conceito que muitas vezes ficou na sua cabeça sem ser entendido (Platão tinha razão: para se entender algo, tem-se que sentir esse algo com a barriga). As pequenas tarefas se transformam em algo muito distinto ao serem feitas em outra língua. A percepção muda, a sensibilidade muda, os critérios mudam. As mínimas coisas tomam outros valores, outros significados.
Sim, os famosos significados. Aquela coisa que para nós é um croaçã, para os franceses é um
croissant e para os argentinos, uma
media luna. No entanto, é tudo isso a mesma coisa? Alguns, tentando responder a esta pergunta, diriam que não porque foram feitos de maneiras diferentes, com ingredientes diferentes, em resumo, que o preparo é diferente. Se tivermos isto tudo em conta, de fato uma
media luna é uma coisa, ao passo que um
croissant é outra. No entanto, se fizermos um teste e trouxéssemos à Argentina um
croissant diretamente saído de um forno francês de uma
boulangerie, é bem possível que um argentino, ao vê-lo, diria, no mesmo momento, que é uma
media luna. Quem sabe nem se dignaria a observar com atenção, já que para ele o fato de aquela coisa ser uma
media luna é óbvio. Outros, repensando nosso experimento, diriam, no ato em que sugeri esta teoria, que o fato de um argentino responder que o
croissant é uma
media luna não faz do
croissant uma
media luna. E sou obrigado a concordar com estes outros: o reconhecimento da similitude não faz com que duas coisas sejam a mesma, ou, em termos filosóficos, que dois entes tenham o mesmo
óntos. Uns terceiros, por outro lado, vão dizer que sim são a mesma e única coisa o
croissant e a
media luna. Justificam isso dizendo que se é a linguagem que os faz serem o que são, a mesma linguagem tem o poder para dizer que de fato são a única e mesma coisa.
Neste momento, o pobre leitor, que já deve estar ficando com sono, pensando em parar de ler este post maldito e ver as notícias em outro site ou quem sabe ver um pouco de putaria na internet (não seria uma má idéia), deve estar se perguntando
¿A qué vas vos con esto? Para ser bem sincero, não vou a nenhum lugar (o intuito estético não é te levar a algum lugar, e sim te fazer ficar no mesmo contemplando o objeto estético; sim, não se enganem: por mais que pareça que não, este post em especial tem um intuito estético, e o tem desde o momento em que eu decidi que tinha!). Continuo sentadinho na
silla (ou será cadeira, ou então
chaise, ou então
chair, ou então o que for...) do Camilo, da qual me apoderei nos últimos dias, ouvindo uma musiquinha e pensando em como vou continuar este texto-reflexão-passatempo (sim, estou conseguindo fazer com que o seu tempo passe única e exclusivamente porque, mesmo se você não quisesse, o tempo passaria da mesma forma; agora, se você está gostando do texto, bom, isso já é um bônus que você se deu a si mesmo; não me agradeça, e sim agradeça-se a si mesmo).
Pois deveras. Tanto não vou a nenhum lugar que não fui e continuo sentado, pensando no que dizer, apesar de já saber (a eterna busca daquele que quer dizer algo e não sabe como fazê-lo). É por isso que a famosa frase de que não se pode traduzir nada é verdadeira, ao mesmo tempo, no entanto, em que também é verdade que tudo é traduzível. Será então que as
medias lunas são a mesma coisa que os
croissants?

Detalhe básico: por mais que se pareça a uma
media luna, eu procurei pelo nome de
croissant...
Sugerencia del troesmaPara quem gosta de Mogwai, Sigur Rós e Notwist,
Gregor Samsa será uma boa surpresa.
Our freek worldCamilonga nos brindou com esta maravilhosa excentricidade:
Casa palito.