Manhã. Acordo com o intuito de, durante o período da manhã, agilizar algo a respeito de trabalho com um contato meu. Ligo para H., pergunto se posso passar em seu trabalho para cumprimentá-lo e ver como ficou um livro no qual trabalhamos juntos (H. é o autor; eu fui o revisor). Detalhe importante: por mais que já tenha trabalhado com H., já tenha recebido dele e trocado uma série de e-mails, nunca o conheci. Facilidades do mundo moderno, onde você pode trabalhar em casa apenas com seu laptop e internet. Bom, eu sou um deles, como todos já sabem: tradutor e revisor freelance home office.
terça-feira, 29 de janeiro de 2008
Um dia de *m
quinta-feira, 24 de janeiro de 2008
Vossuncê tumém qué?
São 13h15 e tem meia hora que Tião, depois de vasculhar o lixo da vizinhança, empanturrou o bucho de uns restos de arroz, feijão e salada, azedos, que encontrou. Satisfeito, estacionou sua carrocinha sobre a calçada, debaixo de uma árvore, e se ajeitou na boléia enquanto sua égua Parruda começou a atacar o matinho. Cruzou as pernas, pegou uma folha de papel almaço já rascunhada que recuperou do mesmo lixo, um pouco de fumo do bolso da calça, enrolou um palheiro e brasa. Queria disfrutar do primeiro mormaço da tarde e da lombeira do almoço. Descanso merecido para Tião e sua égua.
sábado, 19 de janeiro de 2008
Butucaland
Sempre partícipe desta intrépida tarefa de reinventar o mesmo, fui passar uns dias na Ilha do Mel, aonde não ia há anos. A última vez tinha sido com Barbosa, Céline e Ariana. Desta vez, no entanto, com Duim.
No frisson de uma conversa de bar regada a narguilé em uma quarta-feira de madrugada, Duim tem a grande idéia: "Vamos para a Ilha?" Eu, sempre de prontidão e daquele meu jeitão, respondo: "Mas só se for agora!". E fomos bem cedinho. Não passava das 9h já estávamos lá molhando os pés na água e se preocupando em não voltar vermelho de queimado para casa. Eu pelo menos me cuidei, peguei uma cor e ainda não me queimei. Ponto para mim!
E, ainda tomado pela intrépida tarefa, pedi que Duim me levasse a lugares que eu ainda não conhecia. Ela me levou à Gruta e à praia do Nhô Jeca, que, diga-se de passagem, vaut le coup! Pena não termos foto de lá.
Mas a maior experiência de todas foi o nosso encontro com o monstro da Gruta. Era um serzinho desprezível, meio peludo, meio barrigudo (de cerveja, de cerveja) que veio vindo em direção à câmera com seu andar mambulenque e tentou nos atacar. Por sorte, nossa destreza foi maior e conseguimos fugir das suas garras. Um registro foi feito, para não dizerem depois que sou um mentiroso. Confesso que desconfio que haja alguma conexão internacional com nosso grande e impiedoso inimigo Pato-Perro. O cramunhão sempre está presente.
Shots taken directly from Butucaland by Duim, the courageous girl!
domingo, 13 de janeiro de 2008
Quem disse que o bom de chuva é se molhar?
Hemos de convir que deslumbrar-se com o sempre igual não é das tarefas mais fáceis. Vai fazer um mês que estou de volta à terra tupiniquim e sinto que já vi e fiz tudo o que podia fazer e que as coisas já estão começando a se repetir.
Querendo evitar isso, estou tentando reinventar minha estadia no Brasil e na cidade onde quase sempre morei. Fico me forçando a ir a lugares a que nunca fui, a tomar caminhos que nunca tomo para variar os trajetos, a reencontrar pessoas que há muito não vejo, a conhecer pessoas novas, a conversar de assuntos que normalmente não converso, a deixar que puxem papo comigo na esperança de ser supreendido. Às vezes sou, às vezes não.
Sendo assim, ontem fui ao Parque Barigüi com um amigo das antigas vê-lo praticar Trikke. Chegamos, fomos para a pista de automodelismo e ele me mostrou como funcionava o brinquedinho. Muito divertido. Parece difícil, mas não é. Dá para pegar o jeito em um dia, imagino eu. Lá, acabamos encontrando com um conhecido das antigas, contra quem jogamos hóquei. Nosso timeco de merda (sim, eu jogava hóquei quando era mais novo, assim como patinava) contra o time semiprofissional onde ele jogava. É claro que levamos um coro, ainda mais porque eles jogavam com o disquinho (tinham uma pista lisa o suficiente para isso), enquanto nós estávamos acostumados a jogar com a bolinha (porque jogávamos em qualquer quadra de futebol, com ou sem buracos. Não que a lavada que levamos possa ser justificada por isso, mas também não deixa de ser.
De qualquer forma, conversamos sobre patins, trikke e afins mais de hora e fomos ao que tínhamos ido. Eu caminhar ou correr ou sei lá o quê (confesso que o pançudo aqui tinha levado um livro para ler - O inventor da solidão, de Paul Auster) e o meu amigo a praticar o trikke (quem faz trikke trikeia? vai saber!). Mal tínhamos percorrido 300 metros na ciclovia fomos surpreendidos por uma tempestade. Não foi uma chuvinha de merda. Foi um pé-d'água que há tempos não via. Tivemos que nos abrigar em um quiosco e, por estar lá e eu já com fome, a fazer uma boquinha. Mas bah, diriam vocês: foi fazer exercício e acabou só aumentando a massa adiposa que teima em não querer abandonar esse lindo corpinho que você tem! Ah, muito obrigado pelo elogio que me toca.
Continuando, contribuí sim para o aumento, pequeno, quase imperceptível, do meu brioche. Ele agradece, minha estética já não tanto. E foi que nos vimos, dois quase atletas querendo esculpir seus corpos (o meu, no caso, muito lindo), sentados esperando a chuva passar. E foi que me vi observando as pessoas que também estavam lá no quiosco. Havia, como era de se esperar, uns tanto que estavam ali fazendo a mesma coisa que nós. Esperando a chuva passar. No entanto, outros que não. Em especial, havia um casal que me chamou muito a atenção. Ele, típico vileiro curitibano (calça jeans cheia de balacubacos bregas que só vendo), ela, também vileira, com aquela pinta de "não olha muito que te 'ranco os dentes, piá".
Eu, muito na minha, fiquei só de zoio nos dois.
Embora não quisesse muito, tive que observá-los: era muito engraçado os dois juntos. Era nítido que não tinham ido ao parque para fazer esportes. Era nítido que não tinham se protegido lá no quiosco para não se molharem. Mas, então, o que é que os dois estavam fazendo lá? Namorando, uai, sô. E por que cargas d'águas os dois foram namorar bem ali? Para ver os patinhos nadando no lago que não! Nem para ver o bonito que é as aves voando. Então para quê? E não é que os dois estavam assim de mãos dados. Não, estavam se amassando forte, sem o menor pudor. Conclusão a que cheguei? Que, ao contrário do que tinha pensado antes, foram lá se proteger. Mas não porque não podiam fazer exercício, e sim porque queriam é dar uma e não estavam podendo. Primeiro porque começou a chover, e segundo porque, por estar chovendo, não rolava se sujar lá no meio do mato. Dar uma no matinho molhado é foda!
E é assim que foi: eu e asperar a chuva passar e os dois loucos da vida por não poderem dar uma. Ê vidão, ê lá em casa!
Querendo evitar isso, estou tentando reinventar minha estadia no Brasil e na cidade onde quase sempre morei. Fico me forçando a ir a lugares a que nunca fui, a tomar caminhos que nunca tomo para variar os trajetos, a reencontrar pessoas que há muito não vejo, a conhecer pessoas novas, a conversar de assuntos que normalmente não converso, a deixar que puxem papo comigo na esperança de ser supreendido. Às vezes sou, às vezes não.
Sendo assim, ontem fui ao Parque Barigüi com um amigo das antigas vê-lo praticar Trikke. Chegamos, fomos para a pista de automodelismo e ele me mostrou como funcionava o brinquedinho. Muito divertido. Parece difícil, mas não é. Dá para pegar o jeito em um dia, imagino eu. Lá, acabamos encontrando com um conhecido das antigas, contra quem jogamos hóquei. Nosso timeco de merda (sim, eu jogava hóquei quando era mais novo, assim como patinava) contra o time semiprofissional onde ele jogava. É claro que levamos um coro, ainda mais porque eles jogavam com o disquinho (tinham uma pista lisa o suficiente para isso), enquanto nós estávamos acostumados a jogar com a bolinha (porque jogávamos em qualquer quadra de futebol, com ou sem buracos. Não que a lavada que levamos possa ser justificada por isso, mas também não deixa de ser.
De qualquer forma, conversamos sobre patins, trikke e afins mais de hora e fomos ao que tínhamos ido. Eu caminhar ou correr ou sei lá o quê (confesso que o pançudo aqui tinha levado um livro para ler - O inventor da solidão, de Paul Auster) e o meu amigo a praticar o trikke (quem faz trikke trikeia? vai saber!). Mal tínhamos percorrido 300 metros na ciclovia fomos surpreendidos por uma tempestade. Não foi uma chuvinha de merda. Foi um pé-d'água que há tempos não via. Tivemos que nos abrigar em um quiosco e, por estar lá e eu já com fome, a fazer uma boquinha. Mas bah, diriam vocês: foi fazer exercício e acabou só aumentando a massa adiposa que teima em não querer abandonar esse lindo corpinho que você tem! Ah, muito obrigado pelo elogio que me toca.
Continuando, contribuí sim para o aumento, pequeno, quase imperceptível, do meu brioche. Ele agradece, minha estética já não tanto. E foi que nos vimos, dois quase atletas querendo esculpir seus corpos (o meu, no caso, muito lindo), sentados esperando a chuva passar. E foi que me vi observando as pessoas que também estavam lá no quiosco. Havia, como era de se esperar, uns tanto que estavam ali fazendo a mesma coisa que nós. Esperando a chuva passar. No entanto, outros que não. Em especial, havia um casal que me chamou muito a atenção. Ele, típico vileiro curitibano (calça jeans cheia de balacubacos bregas que só vendo), ela, também vileira, com aquela pinta de "não olha muito que te 'ranco os dentes, piá".
Eu, muito na minha, fiquei só de zoio nos dois.
Embora não quisesse muito, tive que observá-los: era muito engraçado os dois juntos. Era nítido que não tinham ido ao parque para fazer esportes. Era nítido que não tinham se protegido lá no quiosco para não se molharem. Mas, então, o que é que os dois estavam fazendo lá? Namorando, uai, sô. E por que cargas d'águas os dois foram namorar bem ali? Para ver os patinhos nadando no lago que não! Nem para ver o bonito que é as aves voando. Então para quê? E não é que os dois estavam assim de mãos dados. Não, estavam se amassando forte, sem o menor pudor. Conclusão a que cheguei? Que, ao contrário do que tinha pensado antes, foram lá se proteger. Mas não porque não podiam fazer exercício, e sim porque queriam é dar uma e não estavam podendo. Primeiro porque começou a chover, e segundo porque, por estar chovendo, não rolava se sujar lá no meio do mato. Dar uma no matinho molhado é foda!
E é assim que foi: eu e asperar a chuva passar e os dois loucos da vida por não poderem dar uma. Ê vidão, ê lá em casa!
segunda-feira, 7 de janeiro de 2008
A volta daquele que vive querendo ir embora
Nossa querida Argentina ficou para trás. Melhor dizendo: continua no mesmo lugar, nós é que a abandonamos. A partida foi uma odisséia digna de ser narrada por Homer(o).
Durante a última semana, as preocupações foram mil: resolver tudo referente ao aluguel de Little Horse; combinar com o novo dono da geladeira de ele vir buscá-la; vender mesa de vidro e o que mais desse da cozinha; vender os respectivos móveis próprios (meu colchão de casal foi dado para Ariana; a mesa, cadeira e cubos do Camilo vendidos a uma amiga dele; todo o resto, incluindo quase tudo, foi levado por ela); dar os resquícios de louça para Nena; entregar os alguns quilos de fotocópia para Jorgelín; vender mi equipito de sonido para la compu para o mesmo; encerrar a conta da internet e entregar o módem na loja; encerrar contas dos celulares; despedir-se de todos os amigos... Em suma, semana corrida.
Para o último dia, duas coisas tinham ficado pendentes e não poderiam não estar pendentes: realizar o ritual de devolução da casa para o maleta da imobiliária e ir para a rodoviária. Já tínhamos combinado com o funcionário de vir meia hora antes de irmos e com o motorista do frete (isso mesmo, precisamos de um frete para levar tudo!) para nos buscar na hora que tínhamos que ir.
O funcionário vem, treta com algumas coisas como era esperado e por fim assina a devolução. Descemos tudo para o saguão e, já suando como porcos, esperamos que nosso frete chegasse.
Descemos com 5 minutos de antecedência. Espero 5 minutos até o horário marcado. O frete não aparecia. Mais 5 minutos, e nada de frete. Mais 5 minutos e ainda nada. Nós, sabendo que precisávamos estar na rodoviária com pelo menos 1 hora antes do embarque, para despachar a pouca quantidade de malas que tínhamos, começamos a ficar preocupados. 20 minutos atrasado e resolvemos ligar perguntando. A atendente disse que ele estava por chegar. 35 minutos atrasado, chegou o frete com aquela cara de cu de sempre... Embarcamos tudo na parte de trás, eu perdi no par ou ímpar e acabei tendo que ir atrás, e assim fomos.
Não bastasse ter chegado atrasado, o motorista ainda resolveu pegar o pior caminho possível para chegar em Retiro. Já na saída de casa pegamos engarrafamento (justamente neste dia havia greve do metrô). Indo pela Hidalgo, pegamos a Avellaneda e fomos embora. Lá pelo centro, ele resolveu entrar na Corrientes. Fatal: outro engarrafamento, ainda maior que o primeiro. E nós, que havíamos pedido o frete com muita antecedência para não chegarmos tarde, acabamos chegando na rodoviária às 11h25. O ônibus saía às 12h. Detalhe a não se esquecer: tínhamos que desembarcar todas as malas só nós dois, pesar, embarcá-las no despacho e ainda comer. Correria total.
Depois de uns 20 minutos levando mala e mais mala escada abaixo até o guichê da empresa e já completamente suados disso tudo, Camilonga, com sua lábia eterna, se põe de pé do atendente para acompanhar tudo. A quilagem de nós dois: 190kg. Exatamente isso. Quase 200kg de bagagem, isso sem contar as de mão, onde tinha pelo menos mais uns 30kg. A passagem de cada um dava direito a 30kg para levar, de forma que podíamos descontar 60kg dos 190kg. Os outros 130 eram excesso. Facada no rim. Mas foi para isso que Camilonga de la Croix tinha se aprochegado do atendente. Conversê para cá, conversê para lá, Camilo e o atendente entraram em um acordo: o atendente diria que não tínhamos excesso de bagagem e nós lhe dávamos 80 pesos pela maracutaia. Nós economizamos 50 pesos, o atendente ganhou 80 e a empresa, que era uma bosta mesmo, ficou sem nada. Azar dos burros, sorte dos espertos.
Já dentro do ônibus, o lance era tentar relaxar naquele Pluminha de merda convencional, onde ficaríamos, em tese, as próximas 30 horas. Acabaram sendo 37h: atrasamos 1 hora para sair, outras duas na fronteira por conta de uma jeca do mato, outras 3 porque o pneu furou e outra aí nas tantas idas e vindas pelas garagens da empresa. Querem um conselho? Nunca em suas vidas peguem a Pluma. O Camilo tinha me avisado, mas eu não lhe tinha dado ouvidos.
Por fim, na madrugada do dia seguinte ao seguinte, chegamos em Curitiba. Uf! Viagenzinha cão.
No dia seguinte, começou tudo: encontro do Clube do Bolinha, futebóis no Cachorródromo, idas à Cachoeira da Curva (secretíssima) e à de Witmarsum, cafés-da-manhã, almoços e jantares com amigos, cineminhas... Por sorte, uma inifinidade de coisas.
Chegou o Natal e aquela comilança de costume. Chegou o Ano Novo, tranqüilinho este ano também, o qual passei entre amigos.
Aí vem a entrada de novo. Um ano estranho, há de se dizer. Começou já muito diferente do que eu havia planejado. As forças cósmicas advindas de sabe-se lá onde foram mais fortes que a minha organização. Tudo ficou virado do avesso, e assim estou. Questão agora de se desvirar. Vai levar um pouco de tempo, mas desviro.
Sensação de voltar para o Brasil? Sinceramente, muito estranha. Ao mesmo tempo em que é tudo muito familiar, tudo também é muito estranho. Às vezes me sinto um peixe fora d'água. Por motivos mil... Desafio atual? Tentar encontrar o estranhamento naquilo que sempre foi o mesmo. É assim, então, que vos deixo com as palavras de um dos tantos sábios da montanha jogados por esse mundo afora:
“Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.” (Vilém Flusser)
Saludos a todos.
Durante a última semana, as preocupações foram mil: resolver tudo referente ao aluguel de Little Horse; combinar com o novo dono da geladeira de ele vir buscá-la; vender mesa de vidro e o que mais desse da cozinha; vender os respectivos móveis próprios (meu colchão de casal foi dado para Ariana; a mesa, cadeira e cubos do Camilo vendidos a uma amiga dele; todo o resto, incluindo quase tudo, foi levado por ela); dar os resquícios de louça para Nena; entregar os alguns quilos de fotocópia para Jorgelín; vender mi equipito de sonido para la compu para o mesmo; encerrar a conta da internet e entregar o módem na loja; encerrar contas dos celulares; despedir-se de todos os amigos... Em suma, semana corrida.
Para o último dia, duas coisas tinham ficado pendentes e não poderiam não estar pendentes: realizar o ritual de devolução da casa para o maleta da imobiliária e ir para a rodoviária. Já tínhamos combinado com o funcionário de vir meia hora antes de irmos e com o motorista do frete (isso mesmo, precisamos de um frete para levar tudo!) para nos buscar na hora que tínhamos que ir.
O funcionário vem, treta com algumas coisas como era esperado e por fim assina a devolução. Descemos tudo para o saguão e, já suando como porcos, esperamos que nosso frete chegasse.
Descemos com 5 minutos de antecedência. Espero 5 minutos até o horário marcado. O frete não aparecia. Mais 5 minutos, e nada de frete. Mais 5 minutos e ainda nada. Nós, sabendo que precisávamos estar na rodoviária com pelo menos 1 hora antes do embarque, para despachar a pouca quantidade de malas que tínhamos, começamos a ficar preocupados. 20 minutos atrasado e resolvemos ligar perguntando. A atendente disse que ele estava por chegar. 35 minutos atrasado, chegou o frete com aquela cara de cu de sempre... Embarcamos tudo na parte de trás, eu perdi no par ou ímpar e acabei tendo que ir atrás, e assim fomos.
Não bastasse ter chegado atrasado, o motorista ainda resolveu pegar o pior caminho possível para chegar em Retiro. Já na saída de casa pegamos engarrafamento (justamente neste dia havia greve do metrô). Indo pela Hidalgo, pegamos a Avellaneda e fomos embora. Lá pelo centro, ele resolveu entrar na Corrientes. Fatal: outro engarrafamento, ainda maior que o primeiro. E nós, que havíamos pedido o frete com muita antecedência para não chegarmos tarde, acabamos chegando na rodoviária às 11h25. O ônibus saía às 12h. Detalhe a não se esquecer: tínhamos que desembarcar todas as malas só nós dois, pesar, embarcá-las no despacho e ainda comer. Correria total.
Depois de uns 20 minutos levando mala e mais mala escada abaixo até o guichê da empresa e já completamente suados disso tudo, Camilonga, com sua lábia eterna, se põe de pé do atendente para acompanhar tudo. A quilagem de nós dois: 190kg. Exatamente isso. Quase 200kg de bagagem, isso sem contar as de mão, onde tinha pelo menos mais uns 30kg. A passagem de cada um dava direito a 30kg para levar, de forma que podíamos descontar 60kg dos 190kg. Os outros 130 eram excesso. Facada no rim. Mas foi para isso que Camilonga de la Croix tinha se aprochegado do atendente. Conversê para cá, conversê para lá, Camilo e o atendente entraram em um acordo: o atendente diria que não tínhamos excesso de bagagem e nós lhe dávamos 80 pesos pela maracutaia. Nós economizamos 50 pesos, o atendente ganhou 80 e a empresa, que era uma bosta mesmo, ficou sem nada. Azar dos burros, sorte dos espertos.
Já dentro do ônibus, o lance era tentar relaxar naquele Pluminha de merda convencional, onde ficaríamos, em tese, as próximas 30 horas. Acabaram sendo 37h: atrasamos 1 hora para sair, outras duas na fronteira por conta de uma jeca do mato, outras 3 porque o pneu furou e outra aí nas tantas idas e vindas pelas garagens da empresa. Querem um conselho? Nunca em suas vidas peguem a Pluma. O Camilo tinha me avisado, mas eu não lhe tinha dado ouvidos.
Por fim, na madrugada do dia seguinte ao seguinte, chegamos em Curitiba. Uf! Viagenzinha cão.
No dia seguinte, começou tudo: encontro do Clube do Bolinha, futebóis no Cachorródromo, idas à Cachoeira da Curva (secretíssima) e à de Witmarsum, cafés-da-manhã, almoços e jantares com amigos, cineminhas... Por sorte, uma inifinidade de coisas.
Chegou o Natal e aquela comilança de costume. Chegou o Ano Novo, tranqüilinho este ano também, o qual passei entre amigos.
Aí vem a entrada de novo. Um ano estranho, há de se dizer. Começou já muito diferente do que eu havia planejado. As forças cósmicas advindas de sabe-se lá onde foram mais fortes que a minha organização. Tudo ficou virado do avesso, e assim estou. Questão agora de se desvirar. Vai levar um pouco de tempo, mas desviro.
Sensação de voltar para o Brasil? Sinceramente, muito estranha. Ao mesmo tempo em que é tudo muito familiar, tudo também é muito estranho. Às vezes me sinto um peixe fora d'água. Por motivos mil... Desafio atual? Tentar encontrar o estranhamento naquilo que sempre foi o mesmo. É assim, então, que vos deixo com as palavras de um dos tantos sábios da montanha jogados por esse mundo afora:
“Estrangeiro (e estranho) é quem afirma seu próprio ser no mundo que o cerca. Assim, dá sentido ao mundo, e de certa maneira o domina. Mas o domina tragicamente: não se integra. O cedro é estrangeiro no meu parque. Eu sou estrangeiro na França. O homem é estrangeiro no mundo.” (Vilém Flusser)
Saludos a todos.
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