segunda-feira, 28 de abril de 2008

O contraditório mundo capitalista

Este mundo que nos rodeia, dito e sabido capitalista, é, a meu ver, por demais contraditório. Agora que sou um menino pagador de impostos, batedor de ponto às 8h e funcionário com direito ao plano mais simples da Unimed, que me cobre com cama comum em enfermaria em casos de acidentes de trabalho (só não sei com que é que vou me acidentar revisando textos; só mesmo se meter a caneta vermelha sem querer no olho!), estou me deparando, novamente, com as contradições da vida de quem acha que trabalhar leva a algum lugar. Vamos, pois, a uma explanação mais vagarosa do assunto.

Eu, muito solícito (acordar para ir trabalhar é o maior ato de solicitude que um ser humano pode fazer), me levanto às 7h, tomo o meu banho quente, me visto já para sair para o trabalho e vou à cozinha preparar algo de comer. Desjejuo, côo um cafezinho, às vezes tomo um suco, arrumo a minha mochila e parto rumo ao inevitável. Por sorte, não padecendo de mais este insolúvel problema do mundo moderno, posso sair de casa às 7h45 e chegar no trabalho às 7h58, a tempo ainda de bater o cartão antes do horário (ponto para mim!). Me sento na minha cadeira, ligo a carroça que insisto em chamar de computador, abro o Dicionário Houaiss, checo meus e-mails laburais, pego a print que estava fazendo no dia anterior e começo mais um dia de trabalho.

Às 11h48, horário já consolidado pelos outros revisores, saio para almoçar. Como bem (meu VR é de R$10,00 e eu o aproveito ao máximo; às vezes até ultrapasso). Às 13h estou de volta, bato o meu cartão e continuo, já meio cansado, já meio com a barriga cheia, já meio com lezeira do almoço, a labuta.

Às 16h20, começo a recolher meus artefatos mágicos de trabalho, a arrumar minha mesa, a fechar a planilha que controla o meu rendimento diário e desligo a carroça (ops, digo computador!). Bato, então, feliz da vida, meu cartão às 16h24 e só vou lembrar do trabalho no dia seguinte, às 7h, quando o maldito do meu despertador vem com aquele pim-pim-pim infernal.

Mas não jaz aí a contradição capitalista que quero abordar. Não contando, é claro, que trabalhar por si só já é uma contradição. Como diria um grande amigo meu, Piper Barrigudinho Zorek, "se trabalhar fosse bom, ninguém te pagava para fazer". A contradição jaz no fato de que a organização do mundo capitalista, e é assim para a grande maioria dos casos, faz com que os funcionários do mundo afora trabalhem das 8h às 18h.

Pensemos: se todos têm que trabalhar das 8h às 18h e as lojas, em geral, tirando as dos shoppings, que são por natureza insuportáveis, fecham às 18h porque os seus funcionários também seguem à risca o sistema das 8h às 18h, como é que as pessoas que trabalham podem resolver suas pendências, comprar suas coisas e consumir tudo o que o capitalista quer que elas consumam? Pensemos ainda mais: se querem que gastemos, por que a maioria das coisas só fica aberta na hora de expediente normal, justamente quando estão todos trabalhando, ao invés de abrir em horários distintos para aquele que trabalha durante o dia todo poder ir resolver tudo o que tem que resolver em paz? Continuemos pensando: como o mundo capitalista, já dito e sabido contraditório, não é organizado de uma maneira inteligente, acontece que todo mundo que trabalha, tendo que resolver seus problemas burocráticos desnecessários do mundo, acorrem aos xópins, que superlotam depois do expediente, fazendo com que todas as lojas encham, que haja filas por todos os lados e que as pessoas, por motivos óbvios, ou não sejam atendidas ou o sejam muito mal, o que, no dia seguinte, vai refletir certamente na qualidade e eficiência de seu trabalho na "repartição". Trabalhando menos e pior, têm menos chance de ganhar uma promoção e assim ganhar mais para gastar mais. Tudo, a meu ver, trocado. "Barbina do Oeste" é o que tenho a dizer.

Eu, por sorte, tenho um horário diferenciado e mais humano e saio às 16h24, o que me dá 1h30 para resolver todas as pendências burocráticas chatas existentes e ainda não existentes. À exceção, é claro, da mais chata do mundo: ir ao banco. Outra contradição, não? Os bancos, que são os lugares e empresas que tratam exatamente do instrumento pelo qual todos podem gastar, são os que abrem mais tarde, fecham mais cedo e que te atendem pior por telefone, fazendo sempre que você tenha que ir de extremo mal-humor (e depois os atendentes ficam se queixando que as pessoas nunca estão felizes nos bancos), na sua 1h de almoço, ao maldito e desolador banco resolver uma idiotice de R$20 ou R$30,00 que deveria, por bom-senso e eficiência mínima, ter sido solucionada por telefone em 2 minutos. Contraditoríssimo!

Por fim, a última discrepância racional e sistêmica do nosso tão querido capitalismo é o fato de haver um abismo entre o preço das coisas e o que as pessoas ganham. Te pedem preços exorbitantes por coisas ínfimas, como se todos ganhassem os R$5.000,00 mensais que todo bom capitalista moderno quer que ganhemos, dos quais R$4.000 têm que ser consumidos em contas e compras. Isso sem pensar que tudo o que economizamos acaba sendo, em algum momento, gasto com alguma coisa (viagens, imóvel, automóvel, eletrodomésticos, roupas, etc.). Ou seja, num bom português, tâmo tudo chafurdando na merda!

O que fazer então frente a tudo isso? A resposta, meus caros, é comer em 30 minutos e correr no banco antes que haja fila!

E depois dizem que este mundo não é cheio de doido!




sexta-feira, 11 de abril de 2008

Se liga, rapá, que se não pagar vai levar pipoco na cara!

Pois foi com esta frase do título, tão simpática, tão gentil, que nossa história começou. Malandragem, tiozão de uns 39, 40 anos, barrigudo, cara inchada de boteco e jeitão de patranheiro de puteiro, me fechou, saiu do carro (um Mégane modelo antigo) e veio me dando de dedo. Ao mesmo tempo, foi se metendo janela adentro para pegar a chave do meu carro, que estava na ignição.

Eu, que já estava com o cu na mão pela atitude do tiozão, afastei sua pata gorda e sebenta e não deixei que ele pegasse a chave da minha querida viatura. Até aí, eu não estava entendendo nada do que estava acontecendo, assim como, caro leitor, vossa senhoria não está entendendo nada até agora deste texto.

Malandragem só foi dizendo: "Se liga, rapá, que tô ligado no que cê fez. Se não se resolver agora comigo vou chamar uns conhecidos que vão resolver a treta por nós!" Ainda não entendendo nada, respondi que não sabia do que ele estava falando, que ele devia ter se confundido. Malandragem continuou falando a torto e a direito, de forma que fui, aos poucos, capiscando que ele achava que eu tinha quebrado o retrovisor dele, que de fato estava quebrado. Já fui respondendo: "Quebrei nada não, senhor. O senhor está se confundindo." Foi aí que ele começou a dizer que eu estava me entregando ao dizer isso e que tinha um revólver dentro do carro, revólver o qual ia resolver toda aquele pendenga.

Eu, que tinha mais três amigos dentro do carro, soltei: "Cara, se liga, meu. Eu tenho três testemunhas dentro do carro que podem confirmar que não fiz nada!" Fora, não disse isso a ele, outro amigo, de moto, que devia estar chegando. Caso ele viesse para cima de mim e me pegasse, sei que tinha quatro escudeiros para me ajudar.

Mas foi neste exato momento que algo inacreditável, ainda mais neste país, aconteceu. Nós, que estávamos em uma rua sem nenhum movimento, onde ninguém jamais escutaria nada, vimos uma viatura da polícia, santa polícia!, santa polícia!, virando e parando o carro atrás de nós. Prontamente, sabendo que aquele que se prontifica e se apresenta tende a ser tomado como inocente, o que de fato eu era, saí do carro e fui tranqüilamente falar com a policial que estava na boléia. Pedi a ela que abaixasse o vidro e lhe expliquei a situação: "Malandragem nos abordou, nos fechou, saiu do carro nos ameaçando e nos acusando de ter quebrado o retrovisor do seu carro. Ainda disse que tinha uma arma no carro ou com ele."

Os dois policiais saíram da viatura e escutaram a versão do Malandragem. Acabaram escutando também a versão dos meus fiéis escudeiros, a qual, coincidência?, era a mesma que a minha. Notaram, no entanto, que Malandragem não era das pessoas mais sóbrias, o que contou como pontos a menos para ele. Deram uma averigüada no meu carro, para ver se de fato tínhamos batido nele ou não (detalhe, como o meu carro é branco, se eu bater, encostar ou relar em alguém vai ficar com certeza a marca da tinta e do raspão), perceberam que estávamos falando a verdade e foram falar com o Malandragem, que, a essa altura do campeonato, já estava começando a ficar com sérios problemas. Os pêlos do cu dele devem ter dado aquela arrepiadinha...

A policial então me perguntou se eu queria ir à delegacia dar queixa por ameaça verbal, respondi que não, para não perder a minha tarde nisso, e pediu que fôssemos embora logo. Enquanto dava a ré, só vi o Malandragem e os policiais indo em direção ao carro dele para fazer uma inspeção. O menos que ia acontecer era o Malandragem ter que se explicar, do ocorrido e do seu bafo um tanto quanto alcoólico...

Nós, é claro, demos no pé. Que o pipoco ficasse pro Malandragem!




segunda-feira, 7 de abril de 2008

Um bando de criançolas que gostam de vidjiguêimi

Todos os homens têm, dentro de si, um menino à espreita. Aquele que eu tenho dentro de mim gosta de jogar videogame (ou, num mal português, telejogo!). Sorte minha ou não, este tal moleque que sou eu acabou achando outros três, tão meninos ou mais piás que eu, e se juntou para fazer uma longa sessão de jogatinas. Ingredientes que não podiam faltar? Pizza, refrigerante e muita rivalidade.

Pois foi assim boa parte do fim de semana: dedicado ao vício. Começamos na sexta à noite. De la Croix, que certamente está lendo este testículo, acompanhou-me no encontro com os companheiros navegantinos. Chegamos, botamos o papo em dia, fofocamos um pouco, mas, ao final, nos dissemos: "O dever nos chama, caros. Vamos ao que viemos!" Levantamos e começamos uma longa noite de muito videogame.

O jogo? Winning Eleven. As escolhas de cada um? Quando com times, era Camilo com o Chelsea, Piper com o Manchester United, Julio com o Real Madrid e eu com o Barcelona. Quando com seleções, Camilo variando mas ficando no geral com a Itália, Piper com a Inglaterra, Julio com o Brasil (viadinho!) e eu com a França (minha eterna sina).

A primeira copinha já começou com um clássico de grandes: Piper (Manchester) x Julio (Real Madrid). Depois de muitos berros, nervosismos, intimações e demonstrações de macheza, empataram em 0 a 0. O jogo seguinte foi eu contra Camilo. Apesar do nível mais baixo, também houve um clima de acirramento ferrenho. Resultado também em 0 a 0. O terceiro jogo da noite foi eu contra o Piper. Comecei fazendo dois golaços antes da metade do primeiro tempo. Alegre e entusiasmado, pensei: "Bah, será que tenho chance?" Mas Deus não quis estar do meu lado e o fiadamãe do Piper virou o jogo, humilhando-me. Desacreditado, tive que continuar vendo os outros jogos à espera do meu próximo confronto.

A partir dos jogos seguintes, só foi se fazendo ver o óbvio ululante. Julio e Piper, quando jogavam contra eu ou o Camilo, nos humilhavam, ao passo que os dois últimos íamos tentando não perder de goleada. O interessante para nós era jogarmos um contra o outro. Era mais feio, mas pelo menos mais passível de competição. Por outro lado, quando os dois profissionais jogavam acabava sendo mais divertido. Primeiro porque a qualidade do jogo, das técnicas aplicadas e das jogadas era muito superior. Segundo porque a zenzice do Piper se contrapunha tanto ao nervosismo e irritadice do Julio que chegava a ser hilário como este se levantava para reclamar, como xingava quando errava um chute, como esperneava quando levava um gol e como ficava "bravinho" ao perder. Tanto foi que antes mesmo de terminarmos nossa segunda copinha já tinha ido dormir. Por brabeza, é óbvio.

Camilo, Piper e eu ainda continuamos, como nos velhos tempos, jogando madrugada adentro. Com os joysticks na mão, vimos o dia amanhecer contentes da vida de termos rememorado nossa infância e adolescência.

No dia seguinte, o Piper tinha que ir para Floripa encontrar a namorada. No entanto, o vício e o saudosismo foram tão fortes que tivemos que jogar um pouco mais. Julio tinha ido no ensaio da banda e não se juntou a nós.

De tarde, com Piper já longe, só deu eu e o Camilo praticando um pouco. Perder tanto de goleada ficou feio para nós. Mais à tarde, porque também somos filhos de Deus e jogar videogame enche o saco, fomos pegar uma prainha. Vidinha mansa na Praia Brava, cervejinha no copo, conversa com os amigos... Tudo como manda o figurão lá de cima.

À noite, fui jantar sushi com outros amigos. Restaurantezinho íntimo de frente para a praia, sakerinha de jaboticaba, conversa da boa... Não podia estar melhor. Camilo e Julio acabaram pegando uma baladinha "de leves".

Domingão de manhã, eu, que tinha concurso, acordei cedo, tomei um café e rumei para a Univali. Surpresa minha foi encontrar centenas de centenas de pessoas lá se amontoando para encontrar suas salas. "Jesusmariajosé", pensei. Fiz, pois, feliz minha prova. Apesar de não saber algumas questões regionalistas (do tipo "Qual é a data da emancipação de Itajaí?", "Como é o nome do atual prédio do Museu Histórico de Itajaí?", "Cite dois afluentes do Itajaí-açu."), a prova estava fácil. A parte de português e informática era patética. No entanto, acho que reprovo nesses pequenos deslizes cometidos nas perguntas regionalistas.

Finalzinho da manhã, volto para Navegantes, depois de um pequeno congestionamento antes justamente da ponte sobre o rio Itajaí-açu, e vou encontrar o Camilão, que estava na praia tirando uma soneca e tomando uma cor, além, é claro, de uma vaca. Ele foi pego de surpresa por uma onda que o molhou inteiro! Hahahaha!

Na volta, comemos algo e nos viciamos mais um pouquinho no vidjiguêimi. Quando teremos outra oportunidade como aquela? Talvez por desígnio divino, encarei novamente a minha sina, a França de Henry, Trézéguet e Barthez, e acabei me encontrando tanto com o time que acabei jogando à altura do Camilo, dando-lhe muito trabalho e preocupações (leia-se gols do maldito Henry).

Finarzinho da tarde, já com os dedos cansados de ficar apertando botão e com os ombros tensos, entramos no carro e voltamos. Com pensamentos maléficos, confessamos...